A Fonte Milagrosa

Aí por meados março último, n´uma quinta da freguesia de Monquim, concelho de Famalicão, desmorou um lanço d´um muro de suporte, d´uns nove a dez metros de largura por cinco a sete de alto, arrastando, na derrocada, pedras, árvores e um largo trato de terreno, que alagou em linha reta, umas tres leiras subjacentes, n´uma extensão de cem metros, aproximadamente.
Foi por uma noite serena e limpa, nenhuns indicios anteriores fazendo prever o desmoronamento, e causando principalmente surpresa o facto de ficar de pé, como se ali estivesse diso plantada, a vinte e um metros de distancia, uma grande macieira, que se encontrava no terreno sobranceiro ao muro desabado. As pedras enfileiraram-se em todo o comprimento da derrocada, como se tratasse d´um aterro para uma estrada, e no plano inclinado do subsoto argiloso, na direção onde estava a macieira, uma boa e abundante fonte brotava, dias transcorridos.
Mais tarde, quando trabalhava nas excavações, uma mulher do campo encontrou, soterrado, um pequeno crucifixo de cobre, achado que outras pessoas presenciaram.
Elementos de de sobra havia para se formar uma lenda a avivar tradições, que para logo foram desenterradas. A Quinta da Costa, onde se deu o fenomeno, é uma das mais antigas do concelho de Famalicão. Da sua casa senhorial, desabitada ha mais de cincoenta anos, vieram os Arrais, e por antigos documentos sabe-se que o solar foi primitivamente no ponto da derrocada. Na atual capela existem duas sepulturas antigas, sendo provavel que o crucifixo aparecido pertencesse a um eclesiastico da casa, ha trezentos anos sepultado na capela primitiva.
Tem a casa da Costa lendas interessantissimas, que muito concorreram para que o povo envolvesse aquele fenomeno geolocico n´uma areola da sobrenatural, julgando-se em frente d´uma fonte santa e de água milagrosa.
Por terras proximas e distantes a noticia foi rapidamente circulando, ao local ocorreu a multidão dos ingenuos e crentes, bebendo e transportando a maravilhosa agua, e são já sem conta as curas que afirmam terem sido por elas operadas. Cegos, aleijados, reumaticos, paraliticos, morfíticos, surdos, padecentes das mais diversas enfermidades ali vão ou mandam em busca do alivio para as suas penas, arrastados pela estranha convicção com que tantos apregoam já os prodigios da agua milagrosa.
Aos domingos, principalmente, os peregrinos, vão, em turmas, das terras mais retiradas, de Famalicão, de Santo Tirso, de Felgueiras, de Guimarães, de Braga, com garrafas, bilhas, cantaros, canecos, pipas e outros recipientes dos mais variados feitios, para a fonte santa: se encaminham, na certeza antecipada de obter cura para os seus ou alheios males.
E emquanto esperam vez, em uma esplanada fronteira á quinta, formam rondas, em dansas e cantares, as bocas dessendentando com um vinho fresco e agradavel que algum ali pôz á venda, até que lhe seja dado ir provar a agua miraculosa, e subir após em romagem á capelinha do velho e abandonado solar onde beijam devotadamente o maravilhoso crucifixo.
A candidez do povo!
Se o proprietario da quinta da Costa, o sr. Abilio de Magalhães Brandão, não fosse um homem inteligente e ilustrado, notavel pelos seus estudos de folk-lorismo e de arqueologia, em volta d´aquele caso se teria já feito a exploração que muitos pretendem fomentar, aproveitando-se a tão facil supersticiosa crendice popular. O certo é que muitos dos espiritos fortes, que d´esta crendice zombam, ali teem mandado buscar agua, pela calada da noite, aplicando-a de mistura com medicamentos, na esperança de que seja a cura mais pronta!
E tantos são os pedidos de agua que o proprietario da quinta recebe, de diversas parte do paiz, tantas as promessas já feitas, que em breve, esquecida a quinta da Costa promete converter-se n´uma Lourdes portugueza, com um ermida pomposa, perigrinações e romarias, milagres e prodigios estranhos!
Quem uma vez for á quinta da Costa, duas recordações saudosas ao menos poderá trazer: a beleza da paisagem, d´uma beleza estoteante, e apureza dos ares sadios e reconfortadores. Quanto á pretença agua milagrosa, tão pura e nitida como a alma ingenua do povo, tão fresca e suave como o rosto das lindas raparigas minhotas que a vão colher, desejáramos nós que tel-o, n´estes dias tórridos, mas era para substituir os refrigerantes adulterados que por essas praças se vendem, com graves riscos para a saúde e sensível prejuízo para a bolsa.
Fonte: Ilustração Portuguesa, 1910. Souza Martins